Sonhar nas margens de um rio

É por entre a vastidão dos campos de Montemor,
vestidos de esperança e de ouro,
que as minhas mãos colhem a vida que dá cor ao papel,
infinito, com a força das palavras.
Ainda que, incontáveis vezes, a alma parta sem rumo,
arrebatada na luminosa distância das asas brancas estiradas no vento,
os meus pés criaram raízes, há muito,
nesta pátria nobre e simples, e acariciada pelo Mondego.
Quem me dera aprisionar para sempre, na imensa sede do olhar,
a frescura dessa corrente aos jorros, onde o céu imerge e voga pacífico,
num leito de seda azul sem nuvens.
Pelas margens de ramadas frondosas, o vento passa ligeiro, sedutor,
e deixa, nos longos braços dos salgueiros, um adeus de terna nostalgia.
A fértil humidade das lavras recobre-se, durante o estio,
com o esplendor das espigas que a carícia do Sol amadurece,
fulgoroso, na abundância dos grãos cheios e dourados.
Dádiva intemporal que o tombar dos séculos perpetua,
graças às mãos calejadas de um povo que canta a generosidade da Terra.
Ouço a minha gente, a quem a vida sulcou o rosto de rugas,
contar histórias com voz de poeta…
E os meus olhos divagam num tempo que também foi o meu,
em que cada sombra adivinhava a luz e
em que essa luz agarrava a secreta magia das sombras.
Muitas vezes, uma imaginação tão desenfreada como as águas do Mondego
arrasta-me para os confins do Universo e lança-me na voragem do desconhecido.
Todavia, o apelo mudo e misterioso das terras oníricas e cheias de glória,
com o perfume das noites de luar, que os grilos enchem de música,
enternece-me as margens da alma…
E eu deixo-me ficar no ventre deste campo fecundo de flores e de poesia,
viajando nas asas fugidias do sonho…

in “Asas de vento e sal”

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