Saudade

O Mundo pestanejou!
E neste ínfimo gesto de tempo, a manhã descerrou as pálpebras,
húmidas de orvalho, e saiu do ventre da noite.
Reflexos de safira afogam-se na voluptuosidade das ondas do mar
e salpicam de azul o céu distante.
Deito-me nos extensos areais que as águas vêm perfumar de sal
e oculto a nudez do meu corpo nos lençóis de espuma efémera,
deixada pelas vagas fugidias.
O sol estende-se sobre o marfim das praias
e incendeia-me em carícias ardentes.
O fogo do desejo percorre-me as veias
e rasga-me a pele de ébano em sulcos profundos,
onde o sonho navega. Sou filha de África,
princesa guerreira de um reino longínquo!
E nos meus olhos escuros dançam cintilações de fogueiras ao luar.
Saem-me da boca fechada cânticos misteriosos
com o hálito da savana imensa,
onde evoco os ventos do deserto.
Numas vezes sou brisa, noutras vendaval,
velejando nas pregas do teu corpo de náufrago.
Sou um galeão doirado, que embalas no peito
a arfar de saudade. E o meu corpo de chocolate,
com cheiro de amêndoa, torna-se num porto de abrigo
ou num cais seguro, com que enfeitiço o teu olhar.
Tenho, na pele mulata, o gosto das especiarias
com que a terra adoça o Oriente.
Deixo-te, na língua molhada, o gosto da canela…
Dessa canela que dá cor ao meu ser.
Trago na alma lembranças de senzalas perdidas
nos suspiros verdes do mato. Gritos de guerra,
afugentam pássaros de oiro e eu beijo o fio da tua lança
molhada de sangue, onde alguém escreveu liberdade!
Cachoeiras líquidas de sombras enxaguam lágrimas silenciosas
que a Terra, ávida, engole com sofreguidão.
E, como se nascidos das suas entranhas, logo o chão se enche de meninos
com cabelos encrespados e sorrisos de mandioca.
E eles riem… Riem tanto que calam as armas e apelam à paz!
Um largo oceano de tempestades desfaz-se em abraços,
nas praias de um país irmão, vestido de xailes negros e de fado,
onde as guitarras choram em cada esquina…
Ouço tambores ao longe e eles perguntam por quê?
Respondo-lhes com o bater do coração, numa música cheia de ritmo.
E eis que os exércitos bradam, prostrados a meus pés:
— Mãe negra! Mãe negra!

in “Asas de vento e sal”

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