Sonhar a Primavera

Acordei hoje, com um raio de sol pousado no meu rosto. Pestanejei, relutante em abandonar o agradável entorpecimento, causado pelo sono. Mas a luz que se derramava, como uma poalha de ouro, sobre os contornos do meu ser, desassossegava-me…
Contagiada pelo chilrear dos pássaros, corri à janela e abria-a de par em par. De imediato, um fôlego de brisa húmida afagou o meu rosto, para logo se esconder por entre a diafaneidade das pregas do cortinado, fazendo-o ondular.
Contemplei o céu pintado de azul-claro. Farripas de nuvens esbranquiçadas liquefaziam-se na lonjura do horizonte.
Distraída, aprisionei no olhar, o voo de uma andorinha. Avistei, depois, outra e mais outra… Intuí, nesse bailado de asas negras, a chegada da Primavera. A minha surpresa preencheu de deslumbre o retalho do mundo, que eu divisava, no quadrado da minha janela.
Aboli a passagem do tempo e fui, de novo, menina.
Embalada pela doçura, que tinha o colo da minha avó Francisca, eu ouvia fábulas de encantar… Foi ela quem, com profunda sabedoria, me contou a história da Primavera.
— Esta noite, enquanto tu dormias… — começou ela, em tom de segredo, para me despertar, enquanto, sentada na beira da minha cama, me estreitava nos braços e me assoberbava de mimos — Aconteceu uma coisa mágica…
— A sério avó?! Por favor, conta… — pedi, com entusiasmo, esquecendo a preguiça que me enleava.
— A Primavera chegou…
— Ah! Sim?!
— Sim… — respondeu a minha avó, com infinda paciência — Veio tão de mansinho, que apenas a Natureza pôde testemunhar a sua presença…
— Quer dizer que tu não a viste?
A avó Francisca sorriu, compreensiva. Ela tinha umas lindas íris azuis, onde, ainda aninhada no seu abraço, eu me via reflectida. E, então, começou a falar das coisas sábias que guardava, num lugar chamado imaginação.
— A Primavera é uma fada que vive algures, embrenhada, na parte mais secreta dos bosques.
— Uma fada?! E como é ela?
— Hum… — fingiu pensar um bocadinho — Deixa cá ver se me lembro… Dizem que ela tem a pele rosada e macia, como as pétalas das camélias e que os seus cabelos compridos rojam o chão.
— E porque não os corta ela, avó? — indaguei eu, na minha inocência.
— Ora, porque se os cortasse, a terra demoraria muito mais tempo a sentir a carícia do sol…
— Como assim?!
Eu não entendia o que uma coisa teria a ver com a outra.
— Eu explico… É que os cabelos da Primavera são formados por finíssimos raios de sol. — declarou a minha avó, com ar sábio — Assim, quando ela os arrasta atrás de si, estes acariciam a face da terra e despertam a vida que aí se oculta…
— E que vida é essa?
— Por exemplo, as sementinhas das plantas e das árvores que, durante o Inverno tiveram de ficar adormecidas, por causa do frio… Se fores lá fora, ao jardim, verás que os bolbos das tulipas estão a começar a germinar. Já se vêem umas folhinhas verdes…
O meu encantamento parecia não ter fim, por isso, pedi:
— Avó! Fala mais acerca da fada…
— Bem… Parece que os olhos dela são dois de pedacinhos de céu.
— Devem ser parecidos com os teus! — exclamei.
A minha avó beijou-me a testa com ternura.
— Nos olhos dela não existe escuro nem tempestades… Só pássaros a esvoaçar… E, sabes uma coisa?
— Não, avó. Conta, conta…
— A primavera tem umas imensas asas de borboleta.
No meu universo de menina, parecia que o sonho viera, de mãos dadas com a avó Francisca, para encher o meu quarto de alegria.
— Ela consegue voar?
— Consegue pois. É dessa forma que ela vigia o seu lindo reino. Quando, no fim de um aguaceiro, notas, muito ao longe, as várias listas do arco-íris, dizem os velhos sábios, que são as cores das asas da Primavera reflectidas no infinito. E aquele ventinho fresco que, por vezes, nos envolve, advém do planar das suas asas.
Lembro-me de, na altura, ter ficado a pensar nas tardes de brincadeira, passadas sob a grande magnólia, que havia nas traseiras da casa, em que uma aragem muito branda trazia até mim o aroma das flores arroxeadas. De certeza, que a Primavera por aí andava, a voejar, só para poder sentir esse odor.
A narrativa da minha avó continuava a absorver-me.
— A fada caminha com tamanha leveza, que parece nem pousar no chão e, sempre que o faz, sob os seus pés nus, desabrocham milhares de florzinhas silvestres.
— Hum… Deve ter sido ela quem cobriu toda a floresta de flores diferentes! — assolada por um pensamento súbito, interrompi-me um instante, para, a seguir, acrescentar — Mas… Aquele carreirinho de violetas, que está ao pé da cerca, foste tu quem o plantou, não foste? E o jasmim junto à garagem… E as margaridas ao lado do tanque… E…
A avó Francisca riu com gosto.
— É verdade, fui eu quem plantou tudo isso.
— Afinal, a Primavera não faz florescer todas as plantas…
— Faz sim senhor!
— Como?! És tu quem cuida delas…
— Eu só estou a dar uma ajudinha à fada Primavera. Sabes que o mundo é muito grande e ela não pode estar em todo o lado ao mesmo tempo. Por isso, nós, humanos, devemos auxiliá-la a cuidar da Natureza, que ela tanto tenta proteger. Infelizmente, nem toda a gente pensa assim… Há mesmo quem destrua as plantas e as árvores, que levaram anos e anos a crescer.
— Porquê avó?!
— Porque alguns homens vivem mais preocupados com o progresso e com as indústrias do que com as espécies de animais e de plantas, que existem no nosso planeta. Mostram tamanha indiferença que, um dia, ainda acabarão por comprometer a vida na Terra.
— Isso é horrível! — gritei, alarmada com a ideia — Não há nada que nós possamos fazer para impedir?
— Claro que sim! — retorquiu a minha avó, com um repentino fulgor no olhar — Todos nós podemos contribuir para que a Primavera continue a encher as nossas vidas de beleza!
— Eu também?!
A avó Francisca assentiu e fez-me uma festa na cara.
— Para começar, basta que cuides muito bem das plantinhas. A fada irá recompensar-te com flores maravilhosas!
A seguir, concentrou-se novamente na sua fantástica caixinha de pensamentos e voltou a falar-me das coisas extraordinárias que sucediam, enquanto eu dormia.
— As plantas, os animais e os pássaros pressentem a chegada da Primavera. Daí que, durante a noite, andem numa grande azáfama a preparar uma festa para a receber.
— Uma festa?!
— Sim. Os pirilampos, mal o sol se põe, são os primeiros a tomarem as suas posições. Começam a subir, a subir… Até se confundirem com as estrelas! Para alumiar o caminho à Primavera, ficam lá no céu a vaguear de um lado para o outro, tal e qual as estrelas-cadentes, transbordantes de luar!
Eu sentia-me fascinada. Parecia que, a cada momento, as palavras da minha avó urdiam um enigmático alfabeto ao redor de nós, mergulhando-nos num lugarzinho só nosso. Um sítio onde mais ninguém poderia ou, sequer, saberia entrar.
— Os rouxinóis, embrenhados no crepúsculo das ramagens, gorjeiam áreas tão sublimes, que as flores, comovidas, choram lágrimas de orvalho. No lago, as rãs, saltam para as folhas dos nenúfares, enchem o peito de ar e coaxam ao desafio. A lua, na tentativa de ficar ainda mais brilhante, desce um instante para se banhar nas águas, deixando-as acesas.
— A lua não se afoga?!
— Ela flutua, como um girassol sem pétalas… Além disso, os peixes gostam de brincar com ela e fazem-lhe imensas cócegas, com as suas escamas e barbatanas da cor da prata.
— Avó… Durante o Inverno, onde se encontra a fada?
— Está, algures, adormecida no ventre da terra. E quando Deus percebe que está na altura de ela acordar, envia, das alturas, bandos de andorinhas… Estas voam em torno do sol, o qual brilha com maior esplendor. A suavidade do seu toque faz com que o coração da terra pulse, cada vez mais depressa, e a Primavera, ao escutar esse apelo misterioso, estende timidamente as asas e espreguiça-se, num longo bocejo.
— É quase como eu, quando pela manhãzinha tenho de acordar… — murmurei, completamente absorta pelas descrições que a avó Francisca me ia fazendo.
— Tens razão! — concordou ela, por entre uma gargalhada.
Tinha a sensação de que o seu riso se assemelhava à límpida corrente de um rio a deslizar sobre um leito de areias muito finas e douradas, onde, nas margens verdejantes, cresciam salgueiros, os quais ficavam tempo esquecido a namorar o vento.
— Avó… Fala-me mais sobre a Primavera… — pedi, quase hipnotizada, na tentativa de tornar aquele momento eterno.
— Sabes porque cheiram as flores tão bem?
— Não… — respondi intrigada.
— É porque a fada Primavera, logo que emerge do seu cantinho subterrâneo, respira com tal profundidade, que o seu hálito flúi para longe, impregnando de perfume todas as flores.
— É mesmo poderosa!
— Hum, hum… — concordou a minha avó — É tão poderosa que, basta um toque dos seus frágeis dedos, para que as árvores libertem as folhinhas aprisionadas, durante meses, no interior dos ramos.
— Oh avó, as andorinhas são mesmo enviadas por Deus para acordar a fada Primavera?
— Não duvides! Elas são as Suas mensageiras… Quando veres uma andorinha, a cruzar o céu, significa que a Primavera está próxima…
Foi com crescente emoção, que eu abandonei as lembranças do passado e fitei esse rasgo pintado de safira, no qual navegavam as andorinhas do presente. Estaria decerto feliz, a minha avó Francisca, que agora habitava o mesmo sítio, onde as aves, desafiando a liberdade, provocavam os primeiros raios de sol.
Fechei a janela e, envergando o meu vestido de godés vermelho, saí para a claridade amanhecida. Descalça, para melhor sentir o beijo humedecido da terra nos meus pés, fui andando por entre os canteiros do jardim, com o vento a enfunar o meu vestido. Sentia-me como uma papoila, de pétalas entontecidas, a rodopiar na paisagem.
Sem saber muito bem de onde, apareceram duas borboletas em voo nupcial. As suas asas polvilhadas de pólen roçaram acidentalmente a brancura da minha pele e eu experimentei, nesse toque fugaz, a fragrância que possuíam os lírios do campo.
Agachei-me junto ao carreiro de violetas que, desde a minha infância, se achava junto da cerca. Após a partida da minha avó Francisca, e tal como ela me ensinara, fui eu quem passou a cuidar dessas plantinhas de flores arroxeadas, pelas quais ela nutria uma predilecção especial.
Sempre que eu lhes tocava, conseguia apagar a distância e reavivar, dentro de mim, o sorriso e os ensinamentos da minha avó. Deixava que a fantasia me arrebatasse de mãos dadas com a vida. Só assim, ano após ano, a fada Primavera poderia continuar a chegar pela calada da noite, envolta em luar, enquanto, serenamente, deitada na minha cama, eu dormia e sonhava…

in “Notícias de Colmeias”, suplemento de Primavera, Março 2008

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