Minha pátria de flores e de sal

Assemelho as formas arredondadas do teu corpo,
a esse extenso areal de dunas paradas e escaldantes,
a quem, de vez em quando,
a brisa traz o cheiro do mar e o grito libertador das gaivotas.
Eu… Eu sou como o oceano de ondas irrequietas,
com cardumes de peixes cor de prata a deambular no ventre,
onde todas as tardes, o sol se afoga no horizonte irisado de carmesim,
incendiando a frialdade das minhas águas,
que, ainda em fogo, se atiram com ímpeto,
de encontro ao areal adormecido e enluarado,
que eu sei seres tu…
Habitam entre as paredes do meu ser, as mais belas recordações.
Reminiscências intemporais, de uma juventude rebelde,
escoada por entre o doce-amargo da ria e do mar,
com o verdor dos campos a permanecer nos meus olhos,
como intermináveis bosques de algas e limos,
a tremular no oxigénio repleto de aves.
A nostálgica visão de um moliceiro,
perfumado de sargaço e de sal,
desliza manso, no acastanhado das minhas íris.
E é como se os anos de ausência,
se diluíssem no enfunado das brancas velas,
voejando num fundo de azul pintado,
onde gaivotas e andorinhas misturam o frémito das asas soltas.
Os meus passos levam-me vagarosamente ao tabuado do cais.
Atracados na melancólica reentrância do ancoradouro,
balouçam bateiras e moliceiros adornados com painéis de mil cores,
embalados pelo afago da maré bordejada de espuma.
Pelas margens da ria alongam-se vastos canaviais,
onde o vento passa, veloz, e compõe músicas de encantar…
É esse mesmo vento, inconstante e vadio,
que desassossega as madeixas escuras do meu cabelo
e me deixa nos lábios um travo a salgado.
Abro os braços, num amplexo imenso,
na esperança inútil de encerrar no peito
cada sombra que foge, cada fio de luz…
Mas o tempo é um cavaleiro andante de lança em punho,
que arrebatadamente, leva consigo as horas paradas,
dos dias mágicos, que aqui se sucedem.
Porém, a terra que piso, a água onde mergulho os meus dedos
e o céu que me envolve, serão eternamente meus…
Vejo passar na linha de união entre o céu e a terra,
um mercantel listado de arco-íris.
Com ele velejam infinitos sonhos de futuro,
ao invés dos corpos trajados de salinidade,
dos velhos marnotos, de mãos calosas e faces tisnadas,
que as páginas do passado trazem a navegar,
em memórias de risos e de lágrimas.
Avivo então, nos pensamentos de outrora,
os campos matizados de colheitas,
como manta de retalhos intensos e ondulantes,
a quem as águas deslizantes dos canais irrigam o cerne da existência.
E quando ocasionalmente,
algum barquito voga na corrente acariciadora,
dá-se a ilusão, deste, oniricamente sulcar,
um mar de ondas verdes e douradas,
onde homens e mulheres enterram o gume da enxada.
Povo que ao devir do crepúsculo
leva consigo os últimos raios de sol,
rumo a uma pátria de “casas alpendre”,
onde, dormitando na pacificidade da noite afora,
sonha, envolto pela magia da estrela d’ alva.
Quantas vezes também eu adormeci,
sob esse mesmo firmamento de suave resplandecência,
sentindo no calor do teu corpo uma âncora desejada,
para o naufrágio, que no meu caminho inventei.
Ainda que com força, eu feche os olhos,
posso ver a lua, na ria a flutuar,
como uma flor de lótus pejada pela luz de todo o luar.
O coaxar das rãs confunde-se com o fluxo da maré,
que ligeira, atravessa os campos alagadiços,
nos quais, vagueiam ao acaso, peixes e grilos,
por entre pés de junco e extensos milheirais.
Terra e água unem-se e confundem-se, num abraço amante.
Lugar, em que as rosas e os rouxinóis da minha infância,
se dulcificam nas vagas do mar…
A vida concedeu-me as asas da audácia,
para que com intrepidez, eu pudesse, o mundo descobrir.
Mas, como uma árvore de profundas raízes,
o destino, esse, de novo aqui me fez regressar…

1º Prémio – VIII Jogos Florais da Murtosa

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