Um Natal nas margens da minha infância

Tão docemente, deixo o meu coração mergulhar, na suave nostalgia, que embala as margens da minha infância…
Recordo as noites frias, cujo ventre misterioso, adivinhava hálito de geada.
Logo pela manhã, descobria um lençol de vaporosa brancura, aprisionando as folhas trémulas das ervas.
Coalhado por uma imensidão de estrelas, o céu derramava sobre a terra, tímidos reflexos de luar, que a ténue diafaneidade das nuvens, filtrava. Por vezes, desprendia-se do resfolegar dos campos, uma densa neblina. Esta, confundia-se com o fumo grisalho, que muito lentamente, saía a flutuar das entranhas das chaminés e se perdia, na atmosfera pejada de humidade.
Nessas noites santas, acendiam-se um pouco por todo o lado, enormes fogueiras ao ar livre, onde ardiam colossais cepos de árvore, deformados, por uma infinidade de raízes lenhosas. No inquietante bailado das labaredas, desprendiam-se numerosas partículas incandescendentes, que no escuro, se assemelhavam a efémeros astros, caídos do infinito apagado.
Ao redor do fogo juntavam-se homens, mulheres e crianças, num convívio simples e franco. Um espírito de harmoniosa festividade afogueava os rostos, com uma inexplicável e contagiante alegria.
Envoltos em açúcar e canela, provavam-se filhós, ainda fumegantes pelo óleo da fritura, e traziam-se das adegas garrafas de água-pé, o que imprimia na noite, um espírito de comemoração.
O riso exuberante das pessoas espalhava-se na aragem, quase cortante, e o halo cintilante do lume resplandecia no negrume, como uma ilha de luz.
Diziam as sábias vozes dos anciãos da minha aldeia, que na noite de Natal se faziam estas enormes fogueiras, para aquecer o menino Jesus, assim que à meia-noite ele nascesse…
Era a visita desse mesmo menino Jesus, que eu ansiosamente esperava, viesse depor uma prenda no meu sapatinho, enquanto eu dormia e com anjos sonhava…
Gostava que até hoje, de todas essas vezes, tivesse permanecido dentro de mim, a sublime ilusão, de que foi um Deus pequenino, nos meus sapatos a tocar…
Lembro a minha pequenez de menina fascinada, envolta na ternura dos braços de minha mãe, com as chamas acobreadas, dessas fogueiras temporais, a dançar hipnoticamente nas íris do meu olhar.
Como ela me apertava de encontro ao peito, sempre que, inesperadamente, um foguete silvava o espaço e, estrondeava por cima de nós, desfazendo-se depois, numa grinalda de lume efervescente, como uma chuva de poalha dourada.
Atrás de cada janela, reflectia-se nas vidraças saturadas de respiração, o colorido intermitente, das luzes que enfeitavam as árvores de Natal.
Um contentamento pueril apossava-se de mim, quando, ocasionalmente, o meu olhar pousava no pinheiro, adornado de serpentinas e bolas de todas as cores, que estava na nossa sala.
O cheiro acre do pinho pairava no aposento, como um incenso sublime e, se eu fechasse bem os olhos, era capaz de ouvir a voz do vento, numa canção de embalar, ao passar por entre os ramos esguios, agora pontilhados por delicadas pepitas de algodão, que eu fingia serem flocos de neve, do céu a cair…
No cimo da árvore, chamejava o prateado ofuscante de uma estrela perfeita, que eu acreditava ter caído do tecto do mundo, para nos ficar, mansamente aí a olhar.
Antes de soarem as doze badaladas, já eu dormia por entre a suavidade do meu leito e sonhava com a festa, que em todos os lugares do mundo, os homens faziam para celebrar o nascimento de Jesus.
Só hoje eu sei o quão privilegiada sou, por essas recordações que habitam entre as paredes da minha alma.
A inocência da minha infância impediu-me de ver, que nem todos os meninos deste planeta em que habitamos, podiam como eu, adormecer envoltos em amor e sonhar com a magia do Natal…
Num Natal feito presente, perdida algures na imensa vastidão dos campos do Mondego, talvez alguém aviste, no vento a tremular, a chama acesa de uma gigantesca vela. É o meu coração aberto de par em par, a pedir pela universalidade da paz…

in “A Outra Face do Luar”

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