Suave milagre

Incrédulo, o menino olhava através da vidraça gotejante, a silhueta branca, a qual, se evolava da superfície nevada.
A noite vestira-se de um vento cortante, que no céu varrera o negrume das nuvens para o outro lado do mundo, descobrindo uma enorme lua de prata.
As árvores do bosque agitavam-se numa enigmática dança, fazendo rodopiar as faldas dos seus vestidos verdes. O halo cintilante do luar projectava-se no chão branquejado, assemelhando-se a um infinito jardim de alvas açucenas, no gelo a desabrochar.
Havia já alguns dias, que uma misteriosa insónia levava o menino a aproximar-se da janela do seu quarto e aí a permanecer em muda contemplação, como se procurasse o sono na paisagem lá fora. Algo o impelia para aquele lugar, como se um estranho chamamento ecoasse na ventania, que cirandava em redor da casa.
A habitação construída no alto da serra, dava-lhe a sensação de estar mais próximo das estrelas… E as amplas asas dos açores desafiavam-no para viagens à medida da sua imaginação.
Ainda assim, nunca a sua fantasia poderia idealizar a figura angelical, que lentamente se elevava do manto de neve, que cobria a terra. Dir-se-ia, ela própria esculpida na pureza nívea, de translúcida glacialidade.
Deléveis contornos moldavam a túnica vaporosa e longos cabelos dourados flutuavam no vento, numa brilhante cascata de luz. Nas costas agitavam-se-lhe duas pequeninas asas emplumadas, como delicados flocos de algodão.
O menino piscou repetidamente os olhos, tentando despertar do sonho em que com certeza mergulhara. Porém, nas suas lindas pupilas cor de céu, continuava a emergir esse incorpóreo anjo alado.
Por instantes, que pareceram eternos, este, fixou o menino e um sorriso doce iluminou-lhe as faces tenuemente rosadas. Envolto pela penumbra da noite, como sabia tão grácil querubim, da desperta presença do pequeno?
Deslumbrada pela cena, a criança viu o anjo encaminhar-se para o bosque. Parecia flutuar. Os seus pés descalços mal pousavam no chão e logo uma profusão de flores brotava da neve, deixando atrás de si um rastro colorido e perfumado. O menino julgou mesmo, ter vislumbrado numa centelha de luar, o palpitar apressado das asas de uma borboleta, por entre o aveludado das pétalas.
O anjo aproximou-se então, de um enorme pinheiro, talvez mesmo o maior de entre todas as árvores ali existentes e colocou ambas as mãos sobre o tronco rugoso. Um nimbo luzente começou a desprender-se dos seus dedos e a percorrer todo o cepo, até alcançar o cimo da alta copa, formada por ramagens de agulhas enfeitadas de neve.
Um “Oh!” de assombro desprendeu-se dos lábios do rapazinho. Pois, num instante, todo o pinheiro parecia feito de luz, refulgindo, num intenso clarão cor de mel. O próprio anjo diluía-se em prodigiosa invisibilidade, no resplendor que das suas mãos escapava.
E sem se saber bem de onde vinham, apareceram centenas de pássaros com plumagem de arco-íris, que nos ramos de pinho vieram pousar. O sublime efeito das suas penas na contraluz que saía das mãos do anjo, punha na noite banhada de luar, milhares de luminescências coloridas. Era tamanha a resplandecência, que o menino pestanejava, cheio de encanto.
― Feliz Natal! ― sussurrou o anjo, numa voz cheia de musicalidade e tão suave, que parecia o rumorejar da aragem, que ligeira, assobiava baixinho junto das ramadas suspensas.
Só então, o menino se lembrou que essa noite antecedia a véspera de Natal. Na verdade, até aí, ele fizera questão de permanecer à margem do espírito natalício, que havia tempo, se insinuava um pouco por todo o lado, imbuindo as pessoas de um inexplicável calor humano. O seu coração sofria ainda a perca do avô.
Seria o primeiro Natal passado sem aquele, que no Inverno, todas as noites se instalava no sofá junto à lareira, o sentava sobre os seus joelhos e o rodeava com os seus braços protectores, contando lindas histórias de encantar. A sua voz era profunda e cheia de sabedoria, por isso, o menino cria verdadeiramente em tudo o que ouvia.
Lembrava-se agora, de uma noite de consoada, em que lá fora, os flocos de neve rodopiavam na pressa do vento. Seguro no abraço do avô, com as labaredas do lume a afoguearem-lhe o rosto, ouvia o ancião falar sobre o espírito do Natal. Dizia ele, que este era personificado pelo mais belo anjo que no céu existia, e que apenas aparecia àqueles, que por um motivo ou por outro, tinham deixado de crer na magia do Natal.
O rapazinho observou uma vez mais o anjo que na meia-luz se diluía, e na sua memória avivaram-se as palavras do avô. Acreditou que fora ele a enviar lá do céu, tão deslumbrante mensageiro, para as suas lágrimas secar, e de novo em si atear o espírito de Natal.
Na manhã seguinte, o menino acordou com um sorriso nos lábios. Sonhou que um anjo estivera no bosque. Uma alegria pueril tomava conta de si. Afinal, era véspera de Natal. À noite a família estaria toda reunida e ele tinha a secreta certeza, de que de algum modo o seu avô também estaria presente.
Tomou apressadamente o pequeno-almoço e saiu para a rua.
Um tímido raio de sol acariciou-lhe as faces, todavia, o frio era cortante. No chão, um imaculado tapete de neve estendia-se a perder de vista. Se uma única flor ali ousasse brotar, com toda a certeza morreria gelada. Irremediavelmente, o seu olhar recaiu no enorme pinheiro plantado na beira do bosque. Na sua abundante fronde, só o branco da neve pintava as finas agulhas.
Empurrada pelo sopro do vento, uma imensa nuvem cinzenta ocultou o sol. Do céu começaram a tombar infinitos retalhos de cristal facetado.
O menino preparava-se para regressar ao aconchego de casa, quando algo chamou a sua atenção. Junto do tronco do pinheiro qualquer coisa muito pequenina dardejava reflexos coloridos, como um minúsculo arco-íris caído na neve. Curioso, o petiz abeirou-se do objecto e qual não foi o seu espanto, quando delicadamente depôs na palma das suas mãos, uma frágil e dardejante pena…

in “Folhas ao vento”

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