Mãe

Há quanto tempo não tens um carinho?
Uma palavra de amor, um beijo, uma rosa?
Tu, que não tiveste tempo para ser menina…
Trocaram a tua boneca de trapos sujos pela escravidão da enxada.
Puseram-te num campo onde cavaste as tuas próprias trincheiras,
defendendo-te de inimigos que não divisavas.
Em cada jornada, vencias a fome com o suor do teu rosto moreno.
Saciava-la com as lágrimas traiçoeiras, que choravas, furtiva,
disfarçada no escuro.
Mas também sonhaste… Os teus sonhos inocentes,
de criança prisioneira, pediam-te liberdade e,
vezes sem conta, voavas para longe.
Vinha, então, o teu carrasco de voz irada e
cortava as asas com que fugias.
Eras mulher num corpo gaiato e aceitavas, resignada,
a tua sorte, porque assim tinha de ser.
Palmilhavas caminhos sinuosos com os pés nus, sangrando. Mas,
nas mãos, levavas o Sol e o gume cortante da foice com que ceifavas o trigo.
Quando ias à escola, um carrasco ainda pior sentenciava-te
duros castigos, porque ingenuamente erravas o á-bê-cê!
Era outra a cartilha em que aprendias…
Num mundo feito de amargura, onde a sombra da miséria era o pão de cada dia,
lutavas como a flor no prado. Resistindo sempre às tempestades e
não te contaminando de amargura.
Se deixaste cair algumas pétalas no longo labirinto, cresceste
generosa e altruísta. E transformaste-te numa linda mulher
que frutificou e sabe amar… Amando até aquele campo que, antes,
te parecia uma pesada pena. Hoje, com infinitas atenções, lanças-lhe
sementes de vida, como as que tu mesma geraste.
Eu sou um rebento de ti, a minha força é o teu sangue,
o meu coração bate pelo teu. No entanto, são incontáveis as noites
em que te roubei o sono e te dividiste em mil cuidados…
Do trabalho dos teus braços nasce a abundância do nosso pão,
Que tantas vezes, em silêncio, tiraste da tua boca…
Tens sempre um sorriso para curar as minhas dores.
Os teus olhos, cansados, contam-me madrigais de papoilas
e o teu corpo ondula, como seara madura, na brisa do poente.
As tuas mãos calejadas são o livro mais belo
que alguma vez foi escrito! Nelas leio, sem vergonha,
a tua história humilde, na qual me ensinas a ser honesta e fraterna.
Mãe, no meu beijo, ofereço-te um milhão de rosas!

in “Asas de vento e sal”

Voltar