Noites de lua cheia

Existem noites enfeitiçadas que enchem de fogo ardente
todas as veias do meu corpo. Noites afogadas em luz e
agonizantes na escuridão que a Lua, muito cheia, enlouquece na nudez.
Em cada recanto terreno, anima-se uma sombra prenhe de vida.
Algumas brisas misteriosas murmuram confidências proibidas
e furtam vontades…
É nessas noites insensatas que o meu hálito queima
e me sinto possuída pela magia negra de uma virgem de branco.
Aquela que baila na lua acesa e que deixa tombar, na Terra em êxtase,
as dobras do seu vestido etéreo, semente de quimeras ainda por sonhar.
Estrelas distantes palpitam-me nos olhos,
rodopiam em órbitas que não são as minhas
e caem extenuadas em qualquer corola do acaso.
É nessas noites de luar que agiganto asas de seda
e tento refrear Pégaso. Cavalo alado, coberto de suor,
sombra indomável do lado furtivo da mulher que sou.
Círculos de fogo queimam as minhas asas de mariposa deslumbrada.
Calcino nas labaredas de Dante, que torturam como as línguas sibilantes
das serpentes expulsas do Paraíso.
Porque o veneno se destila na carne da tentação,
transformo-me na mãe de todas as gerações e eternizo o pecado original.
É nessas noites solarengas que disponho da liberdade
de me sentir cativa dos desejos de Agosto e de chegar atrasada
aos encontros impossíveis…
E de esquecer todos os previamente marcados, para me lançar apenas
nos braços de alguém – ainda que a minha vida se desencontre.
Por isso, penso para não me esquecer de pensar… Enquanto derrubo
um copo de leite sobre a areia sedenta de uma praia longínqua,
reparo nas ondas que me acariciam os pés descobertos.
Rente ao mar, a Lua engravida as águas e afunda-se, serena,
no espelho simétrico. Consomem-se as palavras…
Ficam só os gestos furtivos no luar!

in “Asas de vento e sal”

Voltar