Nasci diferente. No fundo, todos o somos, à nossa maneira. Tenho limitações. Todos as têm.

Alguém deve ter colocado no meu código genético que eu deveria agarrar-me à vida, por tudo quanto ela tem de positivo. Porque, se sofremos, há sempre quem sofra mais do que nós e segue em frente. Seria um insulto à própria vida se eu não me sentisse grata pelas capacidades que tenho e não as usasse em prol de mim e em prol dos outros, pois isso é uma forma de me sentir realizada e feliz.

Sou um ser humano privilegiado, não só pelas minhas capacidades, mas também pelo amor, respeito e apoio que sempre recebi da família – que amo – e de todos aqueles com quem me tenho cruzado ao longo dos anos. É nesse amor que eu busco o sentido para continuar a abraçar a luz (seja ela do sol ou daqueles que me rodeiam) e a vontade de fazer mais e melhor.

A minha diferença não me faz nem melhor nem pior do que os outros, faz-me simplesmente diferente. E essa diferença não dá aos outros o direito de discriminar ou de subvalorizar, sobretudo, porque eu não o permito. Respeito-me e preservo-me, antes de tudo, para que os outros também aprendam a fazê-lo. Aceito-me para que os outros também o saibam fazer.

Podia lamentar-me daquilo que não tenho e desperdiçar, com isso, a vida (que é a coisa mais preciosa que temos e, a maioria das vezes, não lhe damos o devido valor). Prefiro, contudo, abraçá-la e sentir-me agradecida por tudo aquilo que tenho, por tudo aquilo que conquisto. É que as coisas conquistadas têm um sabor infinitamente melhor.

Sou escritora. Não escolhi ser escritora. Escrever é, para mim, tão natural como sorrir ou respirar. Faz parte de mim. Desde pequenina (sim, sim, já fui muito mais pequenina!), que adoro ler. Lia imenso, quando era menina – a menina permanece e tenho a certeza de que será eterna – e continuo a ler sempre que posso, sobretudo, antes de dormir.

São tantas as vezes em que salto para as páginas onde escrevo, de mãos dadas com os meus personagens e, em vez de ser eu a guiá-los e a dizer o que eles têm de fazer, são eles que me guiam a mim e decidem o que querem fazer e onde ir. Eu vou atrás deles. Acredito que sejam tão voluntariosos quanto a sua criadora.

Na adolescência, li muitos clássicos, sobretudo, portugueses. Curiosamente, e agora que penso nisso, nunca achei que fossem inadequados ou complicados para a minha idade, lia-os de um fôlego. Se calhar, acabei por enriquecer muito mais o meu vocabulário e a ter uma perspetiva histórica, social, política e humana vivida na sociedade e no país nos séculos passados. A ironia, o humor, as maledicências, os amores e os desamores, percorriam esses livros em labirintos cheios de suspense e aventura.

Quando editei o primeiro infantil, os meninos, nas escolas, perguntavam-me quando eu iria escrever outra história para eles. Aliás, escrever para crianças, tem sido o meu maior desafio, mas também aquele que mais satisfação me dá. É interessante tentar conciliar a parte lúdica com a parte pedagógica, a linguagem e a imaginação. O engraçado é que descobri que, apesar de ter de existir uma base para misturar todos estes ingredientes, o resultado é sempre inesperado e surpreendente. As crianças têm esse dom.

Gosto de trabalhar, ou melhor, de brincar os livros com elas. Ir a escolas, bibliotecas, feiras do livro… Espaços onde possamos deixar que os livros comuniquem, seja de que forma for. Pois, para mim, o livro é algo vivo, em cujas páginas habitam personagens com o poder de nos fazerem sentir alegria, tristeza, fantasia, esperança, desilusão, amizade… Enfim, a própria vida!

Gostaria também de acreditar que, com a minha diferença, derrubo alguma da (in)diferença. A escrita é uma paixão, mas é também o pretexto para compartilhar valores humanos, afetos e amizade. Sem isso, nada faz sentido. Escrevo, não por um ato egoísta de autorrealização, mas pela partilha, é isso sim, que me move e me realiza. Os lugares e as pessoas que tenho o prazer de conhecer através da escrita são a melhor recompensa e a mais sentida.

Para além de escrever para crianças, também escrevo prosa e poesia para os mais crescidos. Gosto dos desafios e de explorar as potencialidades que a escrita é capaz de oferecer. Ter um conhecimento mais abrangente e mais completo, não só dos géneros literários, mas, sobretudo, de mim própria e daquilo que posso fazer.

Que mais poderei eu dizer acerca de mim? Adoro a Natureza! Posso mesmo afirmar que é a minha principal fonte de inspiração. Vivo perto dos campos do Mondego. O rio traz, no murmurar das águas, os suspiros e os poemas dos poetas intemporais. Sou também divertida e brincalhona, extrovertida e muito positiva. E adoro animais e, se pudesse, recolhia todos os animais abandonados que vejo, porque me causa muito sofrimento vê-los sem casa nem miminhos.

Assim como me causa sofrimento ver que pessoas com limitações, tão ou mais graves do que a minha, são infelizes, porque não tiveram a sorte de ter família e amigos capazes de as apoiarem e de fazerem coisas que as faça sentirem-se úteis e integradas na sociedade como membros de pleno direito.

Acredito num mundo de afetos, é por esse mundo de afetos que vale a pena lutar e sonhar!

Lurdes Breda

in “Uma outra visão…” de Francisco Lucas